domingo, 30 de agosto de 2009

Te encontrar num dia azul


Volver, Depois da Chuva, 2008 (Senhor F Discos)

Com uma parabólica no mangue ou um satélite na cabeça de Chico Science & Nação Zumbi e da turma do Mundo Livre S/A, o som grave das alfaias e o agudo do cavaquinho misturaram o maracatu, samba e pop, colocando Recife no mapa da música mundial na segunda metade de 1990.

Em 2003 os satélites e as parabólicas devem ter sofrido alguma avaria e começaram a captar ondas diferentes, que remetiam a um passado (?) intermediário, com uma mensagem um tanto estranha para o momento. Foi então que quatro caras batizaram uma banda de rock com o nome de Volver e passaram a seguir um caminho que os levaram a linhas harmônicas e melodias grudentas e simples.

Dessa viagem, nasceu em 2005 o CD “Canções Perdidas Num Canto Qualquer”, lançado pelo selo Senhor F Discos, e desse primeiro passo começaram a acontecer mais shows, festivais, resenhas positivas nas revistas e um mundo inteiro a ser descoberto.

Em 2009 o Volver soltou uma pérola extremamente pop, chamada “Acima da Chuva”, pelo mesmo selo. São 11 faixas que se pode ouvir tranquilamente do início ao fim sem pular nenhuma. Pode ser escutado no carro; ficar de música de fundo em uma conversa entre amigos; ou mesmo torando alto, trancado no quarto, prestando atenção nas referências.

Os destaques são: a baladinha contida “Dispenso”, com direito a violão e que parece ter uma pontinha de influência daquela música feita no Village. “Tão Perto Tão Certo”, que pode ser definida como “brega pra indie”, com pegada rock e melodia da 2ª turma da jovem guarda. A seqüência “Acima da Chuva/Dia Azul” com levada de marchinha e vocalizes, não tem como não lembrar de Beatles.

Tenho a impressão de que hoje, pra quem faz música em Recife, deve haver uma cobrança muito grande, depois que a cidade se tornou forte referência com o manguebit dos já citados, tendo ainda o reverenciado vizinho de Olinda Eddie, o Mombojó na fila esperando pra realmente emplacar e o guerreiro solitário China.

Não sei se essas cobranças ou possibilidades de comparações realmente acontecem e nem sei se os caras do Volver se importam com isso. O disco “Acima da Chuva” está no meu “Top 5” dos discos ouvidos em 2009 e mostra que Recife é realmente uma cidade multi-sonora.

Mais Volver em => http://www.myspace.com/volverbrasil

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Uma palavra quente rente à boca.



Saí de casa, com aquela sensação de que algo iria dar errado, afinal, minha relação com o Açaí Biruta nunca foi das melhores. Primeiro uma noite pra esquecer o fim de um relacionamento; depois, primeira noite, do primeiro Se Rasgum, falta de energia e quase três horas pra solucionar o problema e mais uma negativa pra conta. Pra finalizar, show do Mombojó foi uma sucessão de erros, mas nesse ainda bem que não fui.

Com esse pensamento que desci do táxi e me encaminhei à bilheteria junto com mais dois amigos, e de cara, primeiro problema. A lista ainda não estava lá, nem os ingressos estavam lá. Esse seria o indicativo pra mais um ponto contra o lugar? Ok, sou paciente, esperei e o problema foi resolvido em pouco tempo, o que já me deu um alívio!

Algumas horas depois, subiu ao palco o Paralelo XI, banda da cidade de Primavera, próxima a Capanema, interior do Pará. Legal! Um pop que às vezes pesa nas guitarras, até que veio o primeiro “samba” da noite. Pensei “isso vai dar o que falar!”. Deixaram uma sensação boa. Vou fingir que sei alguma coisa e fazer pequenas ressalvas: se uma banda tem dois guitarristas, as duas guitarras devem aparecer e não se pega Cartola indiscriminadamente para fazer qualquer coisa.

Depois de duas boas apresentações nas semanas anteriores, quem subiu ao palco foi o Plug Ventura. O show começou bem, até a candidata a hit “Amnésia”, mas algo desandou e deixou visivelmente irritado o vocalista. Penso que nem sempre as coisas acontecem como gostaríamos, então, não é motivo pra desanimar e sim trabalhar mais, pra eliminar toda e qualquer possibilidade de acontecer o que tenha acontecido dessa vez.

Hora do Suzana Flag no palco e eu realmente não sabia o que esperar. Show dividido em duas partes. A primeira e maior com as novas músicas. A galera agitou, já que pelo menos duas estão tocando em algumas rádios. Na segunda, algumas músicas antigas e celebração total na platéia.

É sempre bom ver o Joel tocando aquela guitarra com um suave dedilhado e riffs nos lugares certos. Vou mais uma vez fingir que sei algo, pra dizer que ele sabe tirar o som necessário do instrumento, pra música da banda. Dividindo as guitarras com Joel, Elienton “Nicolau” Amador (Norman Bates), que deu um peso legal nas músicas. Baixo e bateria seguros, e com isso, Suzane mais segura cantando. Ansioso pelo disco!

Mas a noite era de lançamento de DVD e o Los Porongas subiu ao palco, três anos depois de passar por Belém. A diferença da primeira vez foi ver uma banda madura e bem resolvida. Tocaram as músicas do primeiro disco, com direito a participação do irmão vocalista e compositor de Diogo Soares, Daniel, da banda Sincera, na música Subvertigem. Come Together dos Beatles, foi cantada com a presença do Acácio, da banda Filhos de Empregada, com direito a um tal “galera da laje” de incidental, que eu ainda não sei dizer se realmente gostei!

A noite teve saldo bom. Parabéns ao Coletivo Megafônica pela iniciativa, que tira um pouco a responsabilidade das costas dos Se Rasgum e divide com essa turma nova a promoção de festas e shows. Que venham os próximos, que pelo visto só tendem a melhorar. Quanto ao Açaí Biruta, continuo não gostando do lugar, mas espero que a maldição das coisas darem errado por ali tenha acabado.

Megafônica: http://megafonica.blogspot.com/
Los Porongas: http://www.myspace.com/losporongas
Plug Ventura: http://www.myspace.com/plugventura
Suzana Flag: http://www.myspace.com/bandasuzanaflag

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Só os mais aptos sobrevivem – Parte 02: Os classificados, a festa, a produção.

Foto: Renato Reis

A noite estava tranqüila. Céu aberto, enluarado, maré alta e vento à beira do rio. Um clima tranqüilo em contraste com a ansiedade que deveria existir naquela noite de 8 de agosto, quando oito bandas estavam concorrendo a três vagas para o 4° Festival Se Rasgum e mais alguns prêmios.

Mas todas as bandas negaram esse clima de nervosismo, se aproveitaram da tranqüilidade que pairava no ar e mandaram ver, tentando convencer público e júri de que estavam aptos a sobreviver àquela “batalha de bandas”.

Os escolhidos foram: o peso e a angústia do Sincera, os riffs “old school” do Inversa e a irreverência reggae de Juca Culatra & Power Trio, que além de tocar na quarta edição do festival, ganharam ensaio fotográfico, hot site, horas de ensaio e gravação em estúdio e release - isto é, a estrutura que uma banda independente precisa pra se manter.

Nenhuma dessas bandas descobriu a pólvora, mas parecem ter entendido a proposta do evento e se articularam. Levaram público, mobilizaram os amigos e fãs virtuais e, com seus 20 minutos, provavelmente caíram nas graças do júri e de algumas pessoas que não conheciam seus sons.

Para encerrar em grande estilo, Móveis Coloniais de Acaju, banda de Brasília que representa muito bem o espírito dessa dita “cena independente”. São nove caras no palco, três da equipe técnica mais o produtor/empresário. É uma banda inviável do ponto de vista de custos para qualquer evento. Eles já declararam que no início, era difícil essa coisa toda pra uma banda grande e tiraram muita grana do bolso pra bancar viagens e tocar em festivais. Construíram network aproveitando as possibilidades da internet e cavaram seu próprio espaço na Capital Federal, promovendo o “Móveis Convida”, onde eles se apresentam com artistas convidados de outras cidades.

Hoje, o Móveis Coloniais de Acaju começa a colher os frutos de todo esse trampo, mas continua ajudando a armar e desarmar cenários de shows. Essa é a grande sacada de “só os mais aptos sobrevivem”, espero que o recado tenha sido dado e assimilado por todos.

Uma coisa realmente me chamou atenção, o público! Principalmente pela sensação de renovação. Muitas caras novas ou desconhecidas, e mesmo que aquele não fosse o habitat natural, se é que isso ainda existe, mandaram bem, brincaram, se divertiram e o melhor, na santa paz. Os 3 dias de seletivas levou ao Gold Mar mais de 2 mil pessoas.

Quanto à organização do festival, essa turma é realmente guerreira, por isso, aqui vão meus sinceros parabéns pra Marcelo Damaso, Gustavo Rodrigues, Marcel Arêde, René Chalú e todos os outros que trabalharam à beça e promoveram um evento ímpar pra música local. Três noites que entram pra história. Só os mais aptos sobrevivem!

Site Se Rasgum: http://www.serasgum.com.br/

domingo, 9 de agosto de 2009

Só os mais aptos sobrevivem – Parte 01: Os não classificados



Com o tema “Só os mais aptos sobrevivem”, para o 4° Festival Se Rasgum, a organização do evento mostrou mais uma vez que está muito a vontade pra diversificar e mostrar que hoje não basta APENAS ter uma banda. Tem que batalhar, tem que saber de trâmites burocráticos, produção e todas as chatices que sustentam a atividade artística.

Quem estava ligado na história pôde perceber que só as seletivas movimentaram mais de 100 bandas, produtores, donos de selos e organizadores de eventos. Gente do Brasil inteiro estava de olho no que acontecia por aqui. Teve também mídia impressa, televisiva, radiofônica, internet, boca-a-boca na divulgação, mais os votos de jurados e público para escolha de 3 bandas que se apresentarão no festival, que acontecerá nos dias 13, 14 e 15 de novembro.

Quase todos os gêneros estavam representados nas 24 bandas que subiram ao palco do Gold Mar Hotel. Pop, rock, hip hop, metal e misturas entre outros sub-gêneros musicais.


Destaco a força da turma do Máfia da Baixada, com suas letras politizadas, boas rimas e o DJ mandando bem, dando um tapa na cara da classe média “bem nutrida”. Só acho que o hip hop se modificou ao longo dos anos, pra sobreviver, mas aí é o direcionamento dos caras. O metal que tem um circuito mais independente do que esse de que estamos acostumados a falar, se mostrou como o verdadeiro “movimento de resistência”, esteve bem representado com a banda Tenebrys.


O pop é aquele negócio do “ame-o ou deixe-o”, com letras falando de relacionamentos e refrões colantes. Também esteve bem representado pelo Plug Ventura, que está muito próximo do que se chama de “música radiofônica”. Lado bom: o público gosta de dançar cantando as letras; o lado ruim: o pop enfrenta uma negação velada de ruptura, por parecer comercial demais.


A música de escracho é muito perigosa. Existe uma linha muito fina, mesmo, que divide o interessante do chato, o inteligente do mau gosto, assim, Hebe e os Amargos parece estar no caminho certo. O Ultraleve parece ainda estar tentando encontrar a sonoridade desejada, minha pergunta é: fazer isso com 10 pessoas está ajudando? Se sim, tudo bem!


Parabéns a todos esses participantes que subiram ao palco e tocaram com garra, com vontade de ganhar! Parabéns também as outras 16 bandas que não chegaram a final e as outras que ficaram na primeira peneirada. Tocar em uma banda é assim mesmo, uma batalha diária e ela continua. Lembrem do tema do festival... “Só os mais aptos sobrevivem”.


Site Se Rasgum: http://www.serasgum.com.br/