quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Se a terra é um radio qual é a música? - 15 Anos de Manguebit.



“Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.” (manifesto 'Caranguejos com cérebro', 1994).

Não sei como era Recife em 1994 além das notícias da televisão sobre o frevo que levava muitas pessoas às ruas para dançar o carnaval. Continuo não sabendo como é Recife. Não sei como são as ruas, as parias e os costumes, nunca estive fisicamente lá.

Fato é que desde esse ano, 1994, os olhos do Brasil e do mundo se voltaram para a capital pernambucana, quando as alfaias pesadas do maracatu e a ginga do samba se misturaram às distorções das guitarras rock ‘n’ roll de Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A e adicionaram um tempero diferente à música pop.

Em 2009, os discos Da Lama ao Caos de CSNZ e Samba Esquema Noise do Mundo Livre dançam a valsa dos 15 anos, junto com o tal manifesto que colocou Recife no mapa mundi da música.

Esses discos soaram como dinamite nos ouvidos dos jovens e adolescentes que viviam a ressaca da geração BRock. Era uma novidade muito grande, já que não haviamos vivido a bossa nova, a jovem guarda, o tropicalismo ou o samba rock, no momento em que foram “criados”.

A partir dali pudemos dizer: “eu vi a mudança, eu vivi isso”. Depois desses discos, muitas coisas deixaram de soar estranhas, como o hip rock do Planet Hemp, o reggae pop do Rappa, o swing de Lenine e o escracho brega de Zeca Baleiro.

Acho que nada disso teria acontecido sem a ajuda da MTV e dos selos independentes que as majors mantinham. Eles viram ali uma possibilidade comercial muito grande, tanto que com o tempo a banda de hardcore Devotos, que veio a reboque, foi sendo desligada do movimento.

A brasilidade na música pop se renovou como já havia acontecido em anos anteriores com Benjor e a turma do samba rock, o “pessoal do Ceará” nos anos 70, os Paralamas e o Picassos Falsos nos 80’s.

Chico Science esteve em Belém, acho que em 96, no palco do mesmo African Bar, que posteriormente abrigou a Nação Zumbi (já sem Chico) e Marcelo D2. O Mundo Livre S/A demorou mais de 10 anos para dar as caras (ou os acordes) por aqui. Foi no primeiro Festival Se Rasgum, que agora, nesse ano de 2009, traz em menos de um mês as duas bandas. Mundo Livre S/A, dia 25 de outubro e nação zumbi durante a quarta edição do Festival.

Então... vamos lá dançar essa valsa?!