
Anos atrás, um amigo me chamou atenção para um texto publicado na extinta revista Zero. O tempo passou. Na verdade muito tempo passou e lembrei daquela história. Sem a revista em mãos comecei a vasculhar o mundo virtual sem sucesso. Pedindo ajuda daqui e daili, consegui encontrar, li novamente e pra minha surpresa parecia que estava lendo aquilo pela primeira vez. Peço licença ao André para postar aqui essa história interessante de despedida rock 'n' roll.
Rocks Off
por André Takeda
Você não existe, ela diz ao abrir a porta do apartamento, o sorriso projetando sombras de felicidade nas paredes da sala, as chamas das velas dançando ao som de uma velha canção dos Stones, a mesa posta, o aroma de alecrim, vinho e rosas vermelhas. Você não existe, repete, imaginei que nunca fosse lembrar.
Devolvo o sorriso, abro os braços, ela aceita o convite. Os longos cabelos deslizam pelo meu ombro, ensaiamos alguns passos, evito fechar os olhos, como se fosse preciso guardar cada segundo deste momento. Dez anos, finalmente quebro o meu silêncio, dez anos, nunca imaginei que ficaria tanto tempo ao lado de alguém.
Ela ergue a cabeça, aproxima a boca de meu rosto, morde os meus lábios, e dali desce até ficar de joelhos, abrindo com dentes um caminho de botões e zíper. Esqueço o jantar, e não reajo ao ser engolido. A música abafa os meus gemidos, não era para ser assim, penso, mas foda-se. O discurso fica para depois. Agora, só quero puxá-la com força, deixá-la apenas de salto alto, encostá-la conta a parede. E mergulhar sobre a sua pele. Sou o seu banquete. Ela é o meu banquete. Somos pedaços de carne em um banquete. O banquete dos mendigos, dos famintos, dos desesperados por um segundo sem solidão. Um segundo que iniciou assim, ofegante e suado, e que, de repente, transformou-se em dez anos.
Quantos segundos valem dez anos? Nós já tivemos demais, penso ao desabar em queda livre sobre as suas costas. Você não existe, mais uma vez ela fala, quero mais dez anos ao seu lado. Então é chegada a hora. Caminho até o aparelho de som, aponto para a capa de Exile On Main Street. Você não acha estranho o fato de eu não gostar de nada que os Stones fizeram depois deste disco?, pergunto.
Nua, ela se joga sobre o sofá e olha para mim com dúvida. Sério, continuo, este álbum é de 1972, isso mesmo, 1972, e os Stones ainda estão aí, tocando, lançando discos, tá certo que uns são bonzinhos, mas depois de Exile On Main Street nunca mais foram os mesmos, nunca mais foram geniais, nunca mais tiveram aquela química. Escuta, ela fala, não estraga a noite, tava indo tudo tão bem. Não, digo, você não entendeu, isto aqui não é apenas uma comemoração. Ela tira os sapatos, coloca as pernas sobre o sofá, a poesia de suas curvas rimam novamente com o meu desejo. Mas é preciso seguir em frente.
Desculpe, encerro de vez o assunto, isto aqui não é apenas uma comemoração de dez anos, é uma despedida. Ela ri. É sério, falo, queria apenas me despedir de você do jeito que a gente merece, assim, feliz.
Você o quê?, ela parece não acreditar. Olha, explico, sei que você vai me achar o maior filho da puta do mundo, mas estes dez anos foram tão bons quanto os primeiros dez anos dos Stones, e eu não quero estar contigo mais dez anos e ficar lembrando que os primeiros dez anos eram muito melhores, ou pior, melhores e ponto final. Aproveito que ela ainda está sem palavras, em estado de choque, e coloco as minhas roupas. Tão seguro quanto no dia de nosso casamento, jogo os meus discos dos Stones em uma mochila, beijo a sua testa com carinho, e abro a porta do apartamento.
Você não existe, ouço ela dizer pela quinta vez na noite. E você, falo antes de sair definitivamente de sua vida, você será sempre o meu Exile On Main Street.
OBS: Bem lembrado pela amiga Ana Clara Matos, Mick Jagger lançou em maio, no Festival de Cannes, o doc "Stones in Exile". O disco "Exile on Main Street" também ganhou reedição no mesmo mês colocando os Stones de volta ao topo das paradas britânicas.
Se interessou, mais links relacionados ao André Takeda:
http://peixesbanana.wordpress.com
http://spectorama.tumblr.com/
http://peixesbanana.wordpress.com/2008/08/11/rocks-off/ (Rocks Off no blog do André)
Rocks Off
por André Takeda
Você não existe, ela diz ao abrir a porta do apartamento, o sorriso projetando sombras de felicidade nas paredes da sala, as chamas das velas dançando ao som de uma velha canção dos Stones, a mesa posta, o aroma de alecrim, vinho e rosas vermelhas. Você não existe, repete, imaginei que nunca fosse lembrar.
Devolvo o sorriso, abro os braços, ela aceita o convite. Os longos cabelos deslizam pelo meu ombro, ensaiamos alguns passos, evito fechar os olhos, como se fosse preciso guardar cada segundo deste momento. Dez anos, finalmente quebro o meu silêncio, dez anos, nunca imaginei que ficaria tanto tempo ao lado de alguém.
Ela ergue a cabeça, aproxima a boca de meu rosto, morde os meus lábios, e dali desce até ficar de joelhos, abrindo com dentes um caminho de botões e zíper. Esqueço o jantar, e não reajo ao ser engolido. A música abafa os meus gemidos, não era para ser assim, penso, mas foda-se. O discurso fica para depois. Agora, só quero puxá-la com força, deixá-la apenas de salto alto, encostá-la conta a parede. E mergulhar sobre a sua pele. Sou o seu banquete. Ela é o meu banquete. Somos pedaços de carne em um banquete. O banquete dos mendigos, dos famintos, dos desesperados por um segundo sem solidão. Um segundo que iniciou assim, ofegante e suado, e que, de repente, transformou-se em dez anos.
Quantos segundos valem dez anos? Nós já tivemos demais, penso ao desabar em queda livre sobre as suas costas. Você não existe, mais uma vez ela fala, quero mais dez anos ao seu lado. Então é chegada a hora. Caminho até o aparelho de som, aponto para a capa de Exile On Main Street. Você não acha estranho o fato de eu não gostar de nada que os Stones fizeram depois deste disco?, pergunto.
Nua, ela se joga sobre o sofá e olha para mim com dúvida. Sério, continuo, este álbum é de 1972, isso mesmo, 1972, e os Stones ainda estão aí, tocando, lançando discos, tá certo que uns são bonzinhos, mas depois de Exile On Main Street nunca mais foram os mesmos, nunca mais foram geniais, nunca mais tiveram aquela química. Escuta, ela fala, não estraga a noite, tava indo tudo tão bem. Não, digo, você não entendeu, isto aqui não é apenas uma comemoração. Ela tira os sapatos, coloca as pernas sobre o sofá, a poesia de suas curvas rimam novamente com o meu desejo. Mas é preciso seguir em frente.
Desculpe, encerro de vez o assunto, isto aqui não é apenas uma comemoração de dez anos, é uma despedida. Ela ri. É sério, falo, queria apenas me despedir de você do jeito que a gente merece, assim, feliz.
Você o quê?, ela parece não acreditar. Olha, explico, sei que você vai me achar o maior filho da puta do mundo, mas estes dez anos foram tão bons quanto os primeiros dez anos dos Stones, e eu não quero estar contigo mais dez anos e ficar lembrando que os primeiros dez anos eram muito melhores, ou pior, melhores e ponto final. Aproveito que ela ainda está sem palavras, em estado de choque, e coloco as minhas roupas. Tão seguro quanto no dia de nosso casamento, jogo os meus discos dos Stones em uma mochila, beijo a sua testa com carinho, e abro a porta do apartamento.
Você não existe, ouço ela dizer pela quinta vez na noite. E você, falo antes de sair definitivamente de sua vida, você será sempre o meu Exile On Main Street.
OBS: Bem lembrado pela amiga Ana Clara Matos, Mick Jagger lançou em maio, no Festival de Cannes, o doc "Stones in Exile". O disco "Exile on Main Street" também ganhou reedição no mesmo mês colocando os Stones de volta ao topo das paradas britânicas.
Se interessou, mais links relacionados ao André Takeda:
http://peixesbanana.wordpress.com
http://spectorama.tumblr.com/
http://peixesbanana.wordpress.com/2008/08/11/rocks-off/ (Rocks Off no blog do André)

2 comentários:
me mostraste esse texto acho que faz um ano. de lá pra cá, já o repassei para alguns amigos. o li várias vezes. acabo de ler novamente. delicioso.
Caro amigo, em 2009 fiz um curta-metragem baseado nessa crônica, foi minha primeira experiência com filmes onde assinei o roteiro, a filmagem e a edição...
fica aí para crítica
http://www.youtube.com/watch?v=kdBeYWI6uzs
Daniel Mattos
danielzitcho@hotmail.com
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