domingo, 23 de agosto de 2015

Bate Papo

Felipe Cordeiro

Minha amiga Ana Clara Matos entrevistou o jovem compositor paraense Felipe Cordeiro, para o site guiart.com.br. Faço a reprodução da entrevista aqui nesse espaço, com a esperança de que algo esteja realmente mudando por aqui. Segue o bate-papo:

Tarde ensolarada de início de julho, começo de expediente, primeira tarefa: uma entrevista. A conversa fluiu, o assunto ultrapassou o estritamente profissional e se tornou um agradável bate-papo sobre música, que poderia ter acontecido na beira de uma praia neste alto verão.

Meu interlocutor era o compositor paraense Felipe Cordeiro. O ponto de partida foi o seu primeiro disco, “Banquete”, fruto da poesia bem maturada e a musicalidade de estilo próprio de um artista de apenas 25 anos, com uma infinidade de possibilidades pela frente.

Gravado em 2007, “Banquete” foi apresentado num coquetel em maio e deve ser lançado oficialmente com um show em agosto. Participam do disco doze intérpretes: Karina Ninni (SP), Patrícia Bastos (AP), Vital Lima, Lívia Rodrigues, Andréa Pinheiro, Olivar Barreto, Arthur Nogueira, Mel Ribeiro, Angélica Costa, Renato Torres, Alba Maria e Floriano, que também é responsável por alguns arranjos.

A seguir, Felipe fala sobre o álbum y otras cositas más.

Na apresentação do disco, tu falas de “apego” à palavra “banquete” por conter apetite, tato e ato, e creio que o ato inclui a idéia de celebração. Foi isso que pautou a realização desse álbum, que traz intérpretes-amigos e reúne músicas antigas e outras compostas especialmente para o projeto?

FC: Exatamente isso. A idéia de pessoas reunidas numa "celebração", numa espécie de ritual, no caso uma celebração da "diversidade" brasileira, da poética do sujeito livre... Acho que isso está expresso no disco, desde a escolha do repertório (diverso, do samba ao experimental) até a escolha dos artistas (cantores, parceiros de composição e músicos).

Isso dá pra sentir, mesmo, no clima do disco. Como foi a escolha dos intérpretes para cada faixa? Ou os cantores escolhiam as músicas para gravar?

FC: Eu escolhi os cantores e as faixas que eles iriam cantar. Não dei a liberdade de escolha. Pensei como na direção de um filme, onde queria cada voz para determinada música, pensava sobretudo na unidade do CD, algo difícil de conseguir devido a variedade de timbres e maneiras de cantar. Como não cantei, queria ter o controle dos cantores e as músicas que cantariam.

Sim, isso é muito legal, essa clareza do que queres do trabalho. É composição para além de letra e melodia...

FC: É sim, porque ser compositor de melodias é uma coisa, autor de letras é outra, ser músico (instrumentista) é outra, ser diretor musical de um CD é outra... No caso do disco, fui tudo isso...

Nem todas as músicas do disco foram arranjadas por ti. Como é ver as composições ganharem forma por outras mãos? Atuaste em conjunto nos arranjos de Floriano e Renato Motha ou te entregaste à leitura deles?

FC: Foi uma escolha fundamental no resultado do Banquete meu convite pro Floriano. Ele tinha intimidade com o repertório, pois já tinha arranjado algumas das composições para festivais e discos de cantores. Então o escolhi sobretudo por essa intimidade com o repertório. No entanto quis dividir a direção musical do CD com ele, assim como os arranjos, pela qualidade do trabalho dele, pela experiência e "estilo". Então, eu o chamei e pensei a concepção sonora do disco com ele. Em alguns arranjos que ele assinou eu dei sugestões e em outros não e o contrário também se deu. Assim acredito que foi um trabalho de colaboração mútua e bate-bola, no caso eu ficava responsável por fazer o gol e ele a jogada.

Já o Renato Motha é um grande compositor, músico e cantor mineiro de que sou admirador (antes do Menina da Lua, gravada pela Maria Rita). Sucedeu de ele arranjar duas músicas minhas no disco da cantora amapaense Patricia Bastos. Só fiz pedir autorização do fonograma para utilizar no meu CD, foi tudo gravado em Minas.

Falando dessa relação com músicos de fora do Pará, tuas músicas já ganharam prêmios em outros lugares. Como foi pra chegar nesse mercado que de longe parece tão fechado? Os contatos feitos nessas ocasiões já geraram parcerias, além dessa com o Renato Motha?

FC: Vivemos um contexto muito próprio e isso me faz refletir muito...

Falas do contexto das mudanças no mercado?

FC: Falo com relação a essa coisa de alcançar outros lugares e também do mercado... Mas, concentrando na primeira, eu te digo que participar dos festivais foi um caminho (já foi outrora 60/70 e ainda é um pouco) para entrar em contato com outros artistas, de outros lugares do Brasil. A Internet também já foi muito interessante pra mim nesse sentido. Conheci artistas, toquei em outros lugares... Acho que hoje é bem mais fácil fazer isso, assim como também menos necessário, pois é absolutamente possível ficar por aqui e mandar "sinais de fumaça" para o mundo... Sobre parcerias que se sucederam desses contatos, já aconteceu sim...

Concordo com isso, dos “sinais de fumaça”, mas achava que festival era algo mais difícil de se alcançar.

FC: Os festivais são hoje, em geral, eventos desinteressantes na minha opinião. São defasados quanto à proposta estética, não acompanham, em geral, a velocidade da experimentação (boa e ruim) que se faz no país todo no que diz respeito à estética da música popular... Eles caíram num cancioneiro eloqüente e redundante. Mas, como te falei, é uma boa maneira de entrar em contato com outros artistas. Sempre tem um grande artista (pelo menos) em qualquer festival de música no Brasil.

Olhe, só um detalhe. Estou me referindo aos festivais competitivos, a esse tipo que se chama de "festival da canção". Não estou me referindo, por exemplo, aos festivais de música independente (festivais de "mostra") que acontecem hoje no Brasil aos borbotões e onde se encontra uma diversidade rica e muitos talentos de primeira qualidade. Esses tentam acompanhar (às vezes com sucesso) essa transformação contínua que existe no Brasil.

Sim, sim. E estão em franca expansão... Voltando para o Banquete, como estão os preparativos para o show de lançamento? O espetáculo contará com todos os intérpretes?

FC: Ainda não sei. Está sendo difícil captar o recurso adequado para o show. Mas a idéia é fazer um show belo, com todos os cantores. Ainda estamos vendo...

A batalha da grana...

FC: O compositor ou o cantor que quer fazer acontecer o seu trabalho hoje tem que cair em campo pra captar recurso e fazer essas coisas chatas. Meu CD demorou a chegar por causa disso. Gravei em 2007, mas só chegou agora, porque sou estudante e tive de me dividir em mil pra poder dar conta de fazer as coisas.

Acho muito interessante teres essa consciência, porque essa é uma realidade concreta e muita gente não admite ter que conciliar a função criativa com a parte mais prática.

FC: É... Todo artista, seja ele poeta, artista plástico, músico ou cineasta tem que ter o mínimo de habilidade de um produtor... É chato, mas necessário, e isso tem um lado bom também, pois na medida em que produz cada passo do seu trabalho, tem o controle. Por exemplo, no caso do CD, desde a concepção fotográfica, até o projeto gráfico são partes da "obra". É interessante quando o próprio artista tem esse domínio. Nos anos 80, a maioria dos artistas entregava parte da "obra" na mão dos outros, sem muita interferência. Hoje, necessariamente, ele tem que interferir... Eu digo que é chato, mas tem o lado bom.

Bem, pra finalizar: como tu mesmo já disseste, Banquete reúne canções de vários estilos. Porém, dentro dessa diversidade, são muito fortes em ti as referências dos ritmos paraenses e latinos, não é? Há um projeto de disco ou show mais direcionado a esse enfoque? Já há planos para depois do Banquete?

FC: Há sim. Acho que no Banquete, dentro da diversidade, há uma linha mais clara, que é a que diz respeito à tradição da música popular brasileira. Tem, por exemplo, quatro sambas, quatro tipos de samba. É um sintoma disso. Mas há contradições explicadas como quando digo na música Banquete que "quero quebrar meu violão e lançar no mundo uma proposta de viver...". É meio ingênuo, mas é verdade (risos). Quer dizer que posso, de um dia para outro, fazer um disco bem distinto desse. E é isso que tenho em mente nesse momento: fazer um CD (já tem repertório pra isso) ressaltando a música latino-americana e suas sínteses com a musicalidade da Amazônia, dentro de um espírito mais leve (menos denso, como é no Banquete) de sonoridade, temas e conceito. Tenho um nome provisório pro projeto, Kitsch Pop Cult. Uma longa viagem (risos).

Não acredito mais na tradição mas somente na contradição. Isso é um princípio musical pra mim, valorizar as contradições e não mais a tradição. Isso expressa uma contradição própria da minha atividade musical e do meu gosto que se revela no que é Antigo, no que é Atual e no que será Atual um dia.

Serviço:
“Banquete” está à venda nas lojas Ná Figueredo. Para conhecer melhor o trabalho de Felipe Cordeiro, acesse: www.myspace.com/fcordeiro.

Top 10 - Dez Discos em Dez Anos



A produção musical na primeira década, do novo milênio, no Brasil, foi marcada pela descentralização territorial e consolidação da tal “cena independente”. De todas as regiões surgiram bandas ou se fizeram ouvir acordes de lugares inusitados, com samba, pop, rock, eletro, funk e uma diversidade que provavelmente só a cultura brasileira poderia proporcionar.

Outra característica foi a distribuição desse material. Com os velhos esquemas em declínio e a já quase batida história da ajuda da internet, a música foi consumida nesses dez anos de forma, digamos, democrática. Música barata na rede, mas ainda muito cara nas prateleiras. Foi a década de uma única certeza: O futuro do mercado musical brasileiro é completamente incerto.

A quantidade de música produzida e discos lançados pode ter beirado o absurdo, assim, essa listinha “top 10” foi construída com discos, que a meu ver, representam momentos importantes desses anos que ficam para trás. Não há um vencedor ou destaque maior, cada um listado aqui ou não, tem seu grau de importância.

- O Bloco do Eu Sozinho (2001) – Los Hermanos: Um disco considerado suicídio comercial pelos magnatas da gravadora Abril Music, mas confirmou a mudança que já vinha se desenhando no mercado fonográfico brasileiro. Levou os barbas de volta ao início (quase uma banda independente) com a bolachinha vendida nos shows, inicialmente pequenos, até serem recolocados na mídia e se tornarem os grandes chatos da década após o lançamento do disco Ventura. (Rio do Janeiro – Rio de Janeiro) - Site

- Cinema Auditivo (2002) – Wado: Esse é um disco que cheira a tempero de manguebit. Pode ser, mas também antecipou a estética sonora que dominou a música brasileira na segunda metade da década. Bits, samba/funk e música de raiz em grande sintonia com o pop. (Maceió – Alagoas) - Site

- Fanzine (2003) – Suzana Flag: Uma banda de Castanhal, interior do Pará, conseguiu o que nenhuma da capital havia conseguido. Fazer um disco completamente independente, tecnicamente difícil de ser gravado e vender mais de 2 mil cópias com tiragens conforme a demanda sem selo de distribuição ou esquemas de marketing. Foi com o pop descompromissado de Fanzine que o Suzana Flag caiu nas graças do público local e chamou atenção de alguns produtores Brasil a fora. (Castanhal – Pará) - Site

- Nada de Novo (2004) – Mombojó: Quase dez anos depois do manguebit, mais um filhote de Recife deu as caras. Um disco com sonoridade que já se mostrava comum para aquela cidade, mas que chamou atenção justamente por ter combinado de forma espontânea e saudável o cavaquinho, a flauta, a guitarra e o computador. (Recife – Pernambuco) - Site

- Grandes Infiéis (2005) – Violins: Goiás parecia ser um estado sem tradições roqueiras. Eis que surge o Violins com um segundo disco recheado de guitarras harmônicas e pesadas, bastante melodioso e com letras cínicas que falam de angústias e que a sua forma questionam algumas mazelas sociais. (Goiânia – Goiás) - Site

- Los Porongas (2007) – Los Porongas: É um disco que não apresenta nenhuma novidade, pelo contrário, remete a um passado que atualmente todos parecem fazer questão de negar, que são os 80’s. Um disco bem à época, com pegada forte, letras subjetivas e as vezes até mesmo messiânicas. Colocou a terra de Chico Mendes no mapa da música brasileira. (Rio Branco – Acre) - Site

- Córtex (2007) – Cravo Carbono: “Fale de sua aldeia e serás global”. E assim foi. A música regional num contexto universal. Mistura samba, guitarrada, tecnobrega e caos urbano. O Pará sem a pieguice do açaí e do tacacá. (Belém – Pará) - Site

- Acima da Chuva (2008) – Volver: Melodias fáceis e grudentas. Pop sem ser vendido, cheio de referências. Uma mostra de que Recife vai além dos bartuques, bits e misturas de ritmos. (Recife – Pernambuco) - Site

- Artista Igual Pedreiro – Macaco Bong (2008): A banda já vinha chamando atenção pelos show explosivos. O disco só veio confirmar o talento desse trio que faz rock instrumental vigoroso e eleito o melhor do ano pela revista Rolling Stone Brasil. (Cuiabá – Mato Grosso) - Site

- Mundano (2009) – Arthur Nogueira: Esse disco é um divisor de águas na música paraense. Não carrega a maldosa alcunha de “MPP” (Música Popular Paraense), nem é rock. É um disco atrevido, sofisticado e “antenado” com os dias de hoje, sem forçar a barra. (Belém – Pará) - Site

Menção honrosa aos discos:

- Eletrola (2003) – Eletrola (Belém – Pará) - Site
- O Método Túfo de Experiências (2005) - Cidadão Instigado (Fortaleza – Ceará) - Site
- Chico Corrêa & Eletronic Band (2006) – Chico Corrêa & Eletronic Band (João Pessoa – Paraíba) - Site
- A Marcha dos Invisíveis (2007) – Terminal Guadalupe (Curitiba – Paraná) - Site
- Madame Saatan (2007) – Madame Saatan (Belém – Pará) - Site
- Como Num Filme Sem Fim (2008) – Pública (Porto Alegre – Rio Grande do Sul) - Site
- Um Tributo Delinqüente (2009) – Vários (Belém – Pará) - Site
- No Chão Sem O Chão (2009) – Rômulo Fróes (São Paulo – São Paulo) - Site